O período compreendido entre a concepção e os primeiros meses de vida está inserido no conceito dos "primeiros 1000 dias", representando uma janela de oportunidades de extrema relevância para a saúde do bebê1.
Tendo em vista que os lipídeos são essenciais para o desenvolvimento infantil, os ácidos graxos ômega-3 ganham destaque nessa janela de oportunidades, não apenas como um componente estrutural, mas como um modulador de processos fisiológicos essenciais2.
Nos primeiros seis meses de vida, a disponibilidade deste nutriente é determinante para o desfecho do neurodesenvolvimento, da função visual e da programação metabólica do lactente3.
O que é ômega 3 e qual a sua importância na infância?
Entre os lipídeos, os ácidos graxos polinsaturados (PUFAs) são amplamente estudados na literatura por seu papel na infância.
Os PUFAS podem ser divididos em dois grupos principais: os ácidos graxos ômega 6 e os ácidos graxos ômega 3, que se diferenciam pela posição da dupla ligação nos carbonos de suas cadeias moleculares3.
Para a nutrição infantil, três formas de ômega 3 possuem grande relevância clínica:
- Ácido Alfa-linolênico (ALA);
- Ácido Eicosapentaenoico (EPA);
- Ácido Docosahexaenoico (DHA).
Todos são ácidos graxos polinsaturados, com papel crucial na manutenção estrutural e funcional do cérebro, além de ação antinflamatória e modulação da resposta imune2,3.
O ALA é um ácido graxo essencial e precisa ser obtido via alimentação. Possui papel importante na estrutura da membrana celular e processos metabólicos. Ele pode ser utilizado pelo organismo como precursor para a produção de EPA e DHA3.
O DHA, por sua vez, é um nutriente fundamental para o crescimento e desenvolvimento infantil, pois atua na formação e no funcionamento do sistema nervoso central e da retina3.
DHA na saúde dos lactentes
Embora o organismo possua um complexo enzimático capaz de converter ALA em DHA, a conversão em bebês menores de 6 meses é insuficiente para atender à demanda metabólica acelerada desta fase, devido à imaturidade enzimática3.
Portanto, o DHA é considerado um nutriente condicionalmente essencial durante o primeiro semestre de vida, devendo ser fornecido ao lactente diretamente via leite materno ou fórmula infantil enriquecida, na impossibilidade do aleitamento materno3.
Confira abaixo as principais funções do DHA dos 0 a 6 meses de vida:
Neurodesenvolvimento e cognição
O DHA é fundamental para o desenvolvimento infantil no início da vida, especialmente no que diz respeito à visão e ao sistema nervoso central3.
Ele é um dos principais ácidos graxos polinsaturados de cadeia longa presentes no sistema nervoso central. O acúmulo deste nutriente no cérebro coincide com seu período de crescimento acelerado, entre o último trimestre da gestação e os dois primeiros anos de vida3,4.
A importância e dependência da transferência materna de DHA pode ser evidenciada por um estudo que comparou bebês amamentados, que apresentaram um aumento no DHA cortical, com bebês alimentados com fórmulas infantis sem DHA, onde esse aumento não aconteceu3.
Durante os primeiros meses de vida, ocorre intensa deposição desse ácido graxo no cérebro, coincidindo com fases críticas de formação de sinapses e maturação das redes neurais. Evidências indicam que níveis adequados de DHA estão associados a melhor desempenho em domínios como atenção, desenvolvimento psicomotor e funções cognitivas iniciais3,5.
Em contrapartida, a deficiência de DHA pode alterar a composição das membranas sinápticas, afetando diversas funções cerebrais3.
Acuidade visual
O DHA também desempenha papel essencial no desenvolvimento e na função do sistema visual. Esse ácido graxo tem alta concentração na retina, favorecendo a fluidez das membranas e a captação e processamento dos estímulos luminosos. Esta ação influencia diretamente a acuidade visual dos lactentes e revisões da literatura indicam que a suplementação de DHA na dieta infantil está associada a melhor acuidade visual durante os primeiros meses de vida6,7.
Recomendação de consumo para o primeiro semestre de vida
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o aleitamento materno é o padrão-ouro de alimentação para lactentes, sendo recomendado de forma exclusiva até os 6 meses e complementado até os 2 anos de vida ou mais8.
Os lactentes que são amamentados precisam receber o DHA por meio do leite materno. Uma vez que a concentração de DHA no leite materno é dependente dos níveis maternos deste nutriente, é preciso assegurar que a lactante tenha um consumo adequado de DHA por meio da dieta e/ou por suplementação3.
Na impossibilidade do aleitamento materno, para os bebês de 0 a 6 meses, é recomendado que o consumo de DHA seja feito por meio de fórmulas enriquecidas com este nutriente, seguindo as recomendações atuais3.
De acordo com o último consenso da ABRAN3, a recomendação de consumo de DHA para bebês é definida pelo fornecimento ou não do aleitamento materno:
• Bebês em aleitamento materno: para as lactantes - 200 a 600 mg/dia;
• Bebês de 0 a 6 meses sem aleitamento materno: 0,2 a 0,5% dos lipídeos totais.
A ingestão adequada de DHA nos primeiros meses de vida é uma medida nutricional imprescindível. Por isso, é preciso estar atento às estratégias nutricionais para assegurar a oferta desse nutriente e influenciar de forma positiva o crescimento e desenvolvimento saudáveis e seus desdobramentos importantes para a saúde futura.