A relação da nutrição materna com a saúde infantil é um tema muito relevante e que vem ganhando atenção nos últimos anos, assim como a importância e os benefícios do aleitamento materno1.
Os primeiros 2.200 dias de vida formam um intervalo de ouro na saúde e desenvolvimento da criança, compreendendo desde a pré-concepção até os 5 anos de idade1.
Levando em consideração a importância desta janela de oportunidades e o impacto da alimentação materna durante o aleitamento materno na saúde do lactente, o acompanhamento nutricional durante esta fase é essencial.
Aleitamento materno: contexto e recomendações
Atualmente, a recomendação é que as crianças sejam amamentadas até os dois anos de idade ou mais. O aleitamento materno deve ser exclusivo até o sexto mês de vida e, a partir daí, iniciada a alimentação complementar1.
Apesar da recomendação, o contexto atual é bem diferente. De acordo com os dados disponíveis, menos da metade das crianças menores de 6 meses de vida são amamentadas de forma exclusiva no Brasil1. Este é um dado muito preocupante, tendo em vista todos os benefícios do aleitamento materno.
Benefícios do aleitamento materno

O leite materno é o melhor alimento para os bebês. Além de nutrir de forma completa, é seguro, protege contra doenças, gera vínculo entre mãe e bebê e é sustentável1,2.
Os componentes nutricionais e imunológicos do leite materno possuem capacidade antimicrobiana, anti-inflamatória e imunorreguladora, trazendo benefícios comprovados para a saúde como a redução do risco de doenças infecciosas, mortalidade, desnutrição, obesidade e outras doenças crônicas1.
Além dos inúmeros benefícios à saúde do lactente, as mães que amamentam apresentam risco reduzido para algumas doenças, tais como diabetes tipo 2, câncer de mama e de ovário, e de doenças cardiovasculares1.
Alimentação materna e a composição do leite humano
A alimentação da mãe durante a amamentação não apenas sustenta a sua própria saúde, mas também influencia a quantidade e a qualidade nutricional do leite materno1,3.
Assim, a composição do leite materno pode ser influenciada pela dieta materna neste período, bem como pelas suas reservas de nutrientes no tecido adiposo. Em conjunto, estes fatores influenciam a produção e a composição nutricional do leite materno3.
O grau de influência da alimentação da lactante na composição do leite materno varia de acordo com o tipo de nutriente. De acordo com as evidências, as concentrações de vitaminas lipossolúveis, vitaminas do complexo B (B1, B2, B6, B9, B12) e vitamina C podem variar no leite materno de acordo com a suplementação ou consumo na dieta materna4,5,6.
Para minerais, o iodo e o selênio podem apresentar variação significativa no leite materno de acordo com a ingestão da lactante5.
Em relação aos macronutrientes, a dieta materna não tem um impacto significativo no teor de proteínas ou na quantidade total de gordura, mas afeta os tipos de ácidos graxos presentes no leite materno3.
Assim, os ácidos graxos do leite materno estão entre os nutrientes que demonstram extrema sensibilidade à nutrição materna e impactam diretamente no desenvolvimento neurológico do bebê5.
Um ponto de grande curiosidade e importância é a chamada “Teoria do Flavor”. As evidências sugerem que uma alimentação materna variada proporciona ao bebê o contato com diferentes sabores, tanto intraútero, por meio do líquido amniótico, quanto durante a amamentação pelo leite materno. Esta experiência pode auxiliar o lactente a gostar dos sabores apresentados, o que pode facilitar a aceitação dos alimentos na introdução alimentar1.
Necessidades nutricionais na amamentação
O período do aleitamento materno é essencial para o estabelecimento da saúde materna e infantil. Ele é caracterizado por demandas fisiológicas e metabólicas aumentadas, as quais refletem diretamente nas necessidades nutricionais da lactante3.
Para garantir um desenvolvimento adequado do lactente, é importante que a mãe que amamenta consuma os nutrientes necessários em quantidades adequadas. Confira abaixo as recomendações nutricionais diárias de micronutrientes para esta fase da vida7,8:
Entre os nutrientes citados acima, alguns merecem atenção e são muito estudados atualmente:
Ômega 3
O DHA é fundamental para o desenvolvimento infantil, e as evidências mostram que a sua suplementação tem um efeito benéfico no desenvolvimento cognitivo e visual dos bebês8.
A concentração de DHA do leite materno é dependente do status nutricional materno deste nutriente. Portanto, tendo em vista a dificuldade de um consumo suficiente via alimentação, a suplementação diária de DHA para a lactante é recomendada – mínimo de 200 mg por dia8.
Colina
A colina é um nutriente de extrema importância para o desenvolvimento e função cerebral. A quantidade deste nutriente no leite materno também é dependente da dieta materna, porém, o consumo insuficiente pelas lactantes é muito prevalente9.
Um fato interessante: estudos científicos mostram que a suplementação de DHA associada à colina promove uma atuação sinérgica. Ocorre um aumento superior dos níveis de DHA quando comparado com a suplementação isolada de DHA9,10.
Orientações básicas na rotina
Algumas orientações básicas podem fazer parte da rotina de pessoas em aleitamento materno1,8,7:
- Garantir uma alimentação saudável e equilibrada;
- Fracionar as refeições ao longo do dia;
- Variar a alimentação, evitando a monotonia alimentar;
- Evitar alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras saturadas e/ou trans;
- Consumir alimentos fontes de gorduras insaturadas e ômega 3;
- Garantir hidratação adequada;
- Evitar exclusões alimentares sem real necessidade.
O consumo de suplementos de DHA ou polivitamínicos minerais também pode ser recomendado durante o período de aleitamento materno3, após avaliação nutricional individualizada realizada por profissional de saúde.
Portanto, tendo em vista as necessidades nutricionais aumentadas na amamentação e a influência da alimentação materna na composição do leite humano, é importante o acompanhamento estratégico de um profissional de saúde para a orientação nutricional da mulher que amamenta, promovendo benefícios tanto para a mãe quanto para o bebê.