Garantir um aporte nutricional adequado é fundamental para o crescimento e desenvolvimento da criança, principalmente nos primeiros anos de vida.
Diante da importância da primeira infância e do seu impacto para a vida atual e futura da criança1, o desenvolvimento cognitivo merece um cuidado nutricional especial.
Entenda a seguir como a alimentação pode impactar diretamente na cognição das crianças nesta fase, assim como quais nutrientes precisam estar presentes em seu dia a dia.
Cognição e nutrição nos primeiros anos de vida
A primeira infância corresponde a um período de rápido desenvolvimento e crescimento cerebral, além de intensa neuroplasticidade. Estima-se que, nos primeiros anos de vida, o cérebro atinja entre 80 e 90% do seu volume final, com elevada demanda metabólica e nutricional2.
O cérebro em desenvolvimento intenso é mais vulnerável à insuficiência de nutrientes. Quando o aporte nutricional é insuficiente, o potencial de desenvolvimento cerebral pode não ser alcançado, levando a impactos duradouros sobre aprendizado, desempenho escolar, saúde mental e produtividade ao longo da vida3.
Neste contexto, evidências destacam que o estado nutricional nos primeiros anos de vida está fortemente associado a indicadores cognitivos na infância, adolescência e até na idade adulta4.
Por isso, os primeiros anos de vida são um período crucial para o desenvolvimento cerebral e a nutrição adequada é fundamental para o crescimento ideal e o desenvolvimento cognitivo2,3.
Nutrientes essenciais para o neurodesenvolvimento
A nutrição na primeira infância é responsável por fornecer substratos essenciais para o desenvolvimento neurológico. Tanto macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídeos) quanto micronutrientes (vitaminas e minerais) desempenham papéis específicos na formação de estrutura cerebral e neurotransmissão3.
Assim sendo, o desenvolvimento cognitivo na primeira infância depende de uma nutrição adequada e as crianças que não recebem um aporte nutricional suficiente correm alto risco de apresentar um comprometimento de suas habilidades cognitivas3.
Confira os principais nutrientes que merecem uma atenção especial nesta fase da vida.
Ferro
O ferro atua ativamente na função cerebral e desempenha papel fundamental no desenvolvimento cognitivo em crianças3,5.
O crescimento rápido nos primeiros anos de vida aumenta a necessidade deste mineral, o que leva ao maior risco de anemia por deficiência de ferro em crianças e ressalta a importância da atenção ao aporte diário deste nutriente3.
A deficiência de ferro ou a anemia por deficiência de ferro pode afetar negativamente o desenvolvimento cognitivo, especialmente se ocorrer na primeira infância3.
Além da suplementação preconizada pela Sociedade Brasileira de Pediatria até os 2 anos de idade6, vale a pena incluir alimentos fontes de ferro na alimentação das crianças.
As principais fontes alimentares de ferro heme são os alimentos de origem animal: carnes e ovos. O ferro não heme, por sua vez, está presente em outros alimentos, principalmente os de origem vegetal: leguminosas e vegetais verde-escuros5.
Vale a pena atentar à biodisponibilidade do ferro a depender do alimento consumido, assim como a fatores que podem favorecer ou limitar a sua absorção, como o consumo associado à vitamina C e ao cálcio, respectivamente5.
Zinco
O zinco é um mineral essencial que contribui para a estrutura cerebral e função cognitiva3,7.
A deficiência deste nutriente durante a infância está associada a atrasos no desenvolvimento motor e efeitos prejudiciais na atenção e na memória de curto prazo3.
Assim, é de extrema importância garantir as principais fontes alimentares de zinco no dia alimentar das crianças, como as carnes, frutos do mar, oleaginosas, cereais integrais, leguminosas e leite7.
Ômega 3
Os ácidos graxos ômega 3 possuem três tipos principais: o ácido linolênico (ALA), o ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosahexaenóico (DHA). Todos são ácidos graxos poli-insaturados, com papel crucial na manutenção estrutural e funcional do cérebro8.
O ALA possui papel importante na estrutura da membrana celular e processos metabólicos. Ele está presente em óleos vegetais, oleaginosas e sementes, podendo ser utilizado pelo organismo para a produção de EPA e DHA8.
O DHA é um nutriente fundamental para o crescimento e desenvolvimento infantil, pois desempenha um papel crucial na formação e funcionamento do sistema nervoso central8.
Neste sentido, o aumento do consumo de peixes ricos em ácidos graxos de cadeia longa, especialmente o DHA, já foi associado a melhores resultados cognitivos em crianças3.
As principais fontes alimentares de DHA são os peixes, como a sardinha e o salmão, e as algas marinhas. Já para o ALA, as principais fontes são os óleos vegetais (linhaça e canola) e as sementes de chia8,9.
Veja a seguir a recomendação atual de consumo de DHA para crianças na primeira infância8:

Para os menores de dois anos e que estão em aleitamento materno, é recomendada a suplementação da lactante. Para os que não são amamentados, é recomendado que o consumo de DHA seja feito por meio de fórmulas enriquecidas com este nutriente. Já para os maiores de 2 anos, é recomendado o consumo de DHA por meio das fontes alimentares e, caso seja detectado um aporte dietético insuficiente, a suplementação pode ser considerada8.
Colina
A colina é um nutriente essencial para a integridade estrutural das membranas celulares e mielinização, assim como para o desenvolvimento adequado do cérebro e do sistema nervoso na primeira infância3,10.
Estudos mostram que a deficiência de colina pode impactar negativamente o desenvolvimento cognitivo, por isso, a ingestão adequada deste nutriente também é de grande importância na infância11.
Boas fontes alimentares de colina, tais como ovos, leite, carnes e fórmulas infantis fortificadas, são essenciais para apoiar o desenvolvimento global da criança11.
Calorias e proteínas
Além dos micronutrientes, é importante assegurar um consumo calórico e proteico suficiente para as crianças durante a primeira infância. Um aporte insuficiente de calorias e proteínas nesta faixa etária, além de acometer o ganho ponderal e estatural, também pode prejudicar o desenvolvimento cerebral3.
Uma alimentação adequada na primeira infância não é apenas fundamental para o crescimento físico, mas é determinante para o desenvolvimento cognitivo e do desempenho funcional ao longo de toda a vida. O acompanhamento profissional é indispensável para garantir a ingestão nutricional dentro dos parâmetros ideais para esse desenvolvimento!