Ao olhar para a alimentação infantil, são vários os cuidados em relação não apenas à quantidade de nutrientes, mas também quanto à qualidade dos mesmos. Nesse sentido, quando pensamos no consumo de gorduras, além da necessidade de um consumo moderado de ácidos graxos saturados e de reduzir ao máximo a ingestão de gorduras trans, o profissional de saúde que atua com o público infantil deve estar atento ao consumo dos ácidos graxos poli-insaturados. Por que esses nutrientes são tão importantes nessa etapa da vida?
Ácidos graxos poli-insaturados ômega-3
Os ácidos graxos se diferenciam entre saturados e insaturados, sendo os saturados aqueles que não apresentam em sua cadeia uma dupla ligação. Os ácidos graxos que contém dupla ligação são denominados insaturados, sendo monoinsaturados (MUFAs) os que contém uma dupla ligação e poli-insaturados (PUFAs) os que contém mais de uma.1 Da mesma forma, o tamanho das cadeias presentes determina a classificação dos ácidos graxos poli-insaturados, sendo:1
- Até 6 carbonos: cadeia curta;
- De 6 a 12 carbonos: cadeia média;
- De 12 a 20 carbonos: cadeia longa;
- Mais de 20 carbonos: cadeia muito longa;
Os ácidos graxos do tipo ômega (ω) são poli-insaturados de cadeia longa ou muito longa (18 carbonos ou mais), sendo os mais conhecidos os tipos 3 e 6. Uma vez que o organismo não é capaz de sintetizar tais compostos, eles obrigatoriamente precisam ser fornecidos pela alimentação, sendo que as principais fontes de ômega-6 são os óleos vegetais, e as principais fontes de ômega-3 são óleos vegetais, sementes (linhaça, nozes) e peixes como salmão e arenque.1
Dentre os 3 tipos de ômega-3, os que têm recebido maior atenção dos estudos são o EPA (ácido graxo eicosapentaenoico) e o DHA (ácido graxo docosahexaenoico), mais presentes dentre as fontes alimentares de origem animal.1,2 As fontes vegetais fornecem majoritariamente o ômega-3 ALA (ácido alfa-linolênico), que pode ser convertido pelo organismo de maneira limitada em EPA e DHA.2
Além destas fontes, é importante lembrar que existem no mercado produtos para a infância que recebem a fortificação de ômega-3, como alguns compostos lácteos, que apresentam boa aceitação pelas crianças, podendo ser assim facilmente inseridos na alimentação cotidiana.
Estudos com ômega-3 na infância
1. Bebês que receberam suplementação de DHA (~200 mg/d de DHA) desde o parto até 4 meses pós-parto tiveram melhor desempenho em teste de atenção sustentada2
2. A suplementação com 400 mg/dia de DHA em crianças de 4 anos durante 4 meses aumentou o nível de DHA no sangue e aumentou as pontuações em teste de compreensão auditiva e aquisição de vocabulário2
3. A suplementação de ácidos graxos ômega-3, particularmente com doses mais elevadas de EPA, foi modestamente eficaz no tratamento do TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade)3
Muitos são os resultados benéficos investigados por estudos para as crianças ao inserir o ômega-3 na rotina, sendo alguns deles:
Ácidos graxos ômega-3 estão associados com fosfolipídeos na membrana celular e com triglicerídeos nos estoques de lipídeos. O DHA é um dos componentes da parte cinzenta do cérebro e os fosfolípideos são um dos principais componentes da retina, fazendo com que esse ômega-3 seja importante para o funcionamento desses tecidos. 1,2 Por se acumular no córtex cerebral e no hipocampo, áreas do cérebro associadas ao aprendizado e à memória, e também ser um componente estrutural dos fotorreceptores da retina, o DHA está associado a um melhor desempenho das funções cognitivas e da visão. 2,4
Recomendação de consumo de ômega 3 por crianças
Devido à sua importância na infância, principalmente em aspectos cognitivos, a Sociedade Brasileira de Pediatria, em seu “Manual de Alimentação”, orienta as seguintes recomendações de consumo de ômega-3 para crianças:1
Ácidos graxos Poli-insaturados: 5% – 15 % do total de energia
Ômega-6: 4% – 13% do total de energia
Ômega-3: 1% – 2 % do total de energia
Considerando o papel do ômega-3 na infância, é importante que o profissional de saúde esteja atento ao consumo de alimentos fontes desse tipo de ácido graxo, contribuindo assim para um desenvolvimento infantil saudável.